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Escuta da PF liga apoio de 'facção' a José Melo - Holofote Manaus

Política

08/01/2017 às 08h46 - Atualizada em 08/01/2017 às 08h46

Escuta da PF liga apoio de 'facção' a José Melo

Holofote Manaus
Manaus - AM
FONTE: D24am

Foto: Reprodução/Internet

Um ano antes das interceptações da PF, uma gravação feita dentro do Compaj, gravada uma semana antes das eleições para o segundo turno para o cargo de governador do Estado, mostra uma conversa entre o major da Polícia Militar (PM) Carliomar Barros Brandão, então subsecretário de Justiça e Direitos Humanos com Zé Roberto. Durante a conversa, o oficial pede apoio ao traficante para as eleições de 2014, em troca da “paz” dentro dos presídios de Manaus.

Durante a conversa, Zé Roberto, segundo o áudio, diz: “Vamos apoiar o Melo, entendeu? A cadeia…vamos votar minha família toda, lá da rua, entendeu? Não tem nada não, a gente não conhece o Melo (trecho inaudível), a gente quer dar um alô, que ele não venha prejudicar nós. E nem mexer com nós”, pede o narcotraficante, que atualmente cumpre pena no presídio Federal.

Como forma de acordo, o então subsecretário de Justiça e Direitos Humanos, major Carliomar Brandão (foto), que logo após ter sido exonerado do cargo voltou a assumir o comando do Batalhão de Trânsito do Estado do Amazonas (Batran), cargo que ocupa até o momento, fala: “Não, ele não vai, não... A mensagem que ele mandou para vocês agradeceu o apoio e que ninguém vai mexer com vocês, não”, afirma o oficial.

Para garantir que a promessa seja cumprida, Zé Roberto cita ocorrências como ataques criminosos registrados em outros Estados. “Tá vendo o que está acontecendo em Santa Catarina (vários ataques)? É o comando dos caras, que estão rodando lá por causa do governo dos caras. Tá vendo aqui, a cadeia tá tudo em paz porque o governo daqui não mexe com nós”, disse o traficante.

Mais uma vez, o major garante que não haverá represália. “O que ele quer é isso, é a cadeia em paz”. Diante da afirmação do oficial, Zé Roberto fala do número aproximado de votos que a facção pode dar ao candidato: “Eu acho que de voto ele vai ter de nós mais de cem mil votos”, cogita Zé Roberto.

Ouça os áudios com as transcrições



A conversa tem cerca de 30 minutos e antes de saírem da sala, major Carliomar se certifica que o acordo foi firmado e em troca, o Estado não irá intervir com o grupo do traficante. “Então, pra próxima vocês vão ajudar, né?”, diz ele. Zé Roberto responde: “Você imagina cada preso que tem família lá, se a gente der uma ordem eles vão cumprir. Não é igual aqueles caras que se der 100 reais que diz que vai votar e não vota. O nosso vai votar no Melo porque nós mandemos (sic)”, afirma Zé Roberto.

No dia 26 de outubro de 2014, o governador José Melo foi reeleito para ocupar o cargo por mais quatro anos com 55,56% dos votos válidos, contra 44,44% do concorrente e atual senador Eduardo Braga (PMDB).

Logo após a divulgação da gravação e o resultado das eleições, foi instaurado na Justiça Eleitoral o Processo de Nº  2245-76.2014.6.04.0000 Classe 3. Dentre os objetos investigados estão o uso de funcionários públicos durante as eleições, onde as conversas contidas nos áudios também são apuradas.

Consta no site da Justiça Brasil que o processo ainda está em andamento e que a última audiência sobre o caso foi realizada, em agosto de 2016. De acordo com o advogado da coligação de Braga, ‘Renovação e Experiência’, que ajuizou a ação, Daniel Nogueira, o conteúdo existente no áudio foi comprovado a partir de provas testemunhais.

No entanto, segundo Nogueira, a defesa do governador quer anular o áudio como prova. “No entendimento deles, a gravação não é válida porque foi feita em tom ambiente, mas tudo está comprovado por testemunhas que elas existiram”, afirmou o advogado.

A reportagem entrou em contato com o procurador-chefe do Ministério Público Federal (MPF), Edmilson Barreiros, para comentar sobre o assunto. No entanto, ele informou que não está acompanhando o caso e que os procuradores envolvidos na ação estão de recesso judicial e retornam nesta segunda-feira. 

A reportagem também entrou em contato com o desembargador João Simões, que é o relator do processo, mas o mesmo não atendeu às ligações.

Resposta

Em nota, a Secretaria de Estado de Comunicação (Secom) respondeu que “o governador José Melo repudia a tentativa de lhe associar a supostas negociações com criminosos ou de ter usado forças policiais durante as eleições de 2014”. A nota prossegue dizendo que “o processo está em fase de instruções e os advogados que fazem a defesa do governador ressaltam que em nenhuma das acusações há qualquer comprovação de veracidade nas denúncias”.

Ainda de acordo com a nota, “a assessoria jurídica reforça que nas próprias conversas mencionadas pela reportagem, os diálogos são claros no sentido de que não houve qualquer tipo de acerto em troca de apoio. Todas as palavras relacionadas à campanha foram proferidas pelo detento, sem que tenha havido qualquer contrapartida do interlocutor, no caso o major Carliomar Brandão”.

Sobre o major continuar trabalhando para o governo, em cargo de confiança, a nota diz que “as denúncias não foram comprovadas e ainda não houve julgamento do caso, o que, portanto, não impede que o major exerça qualquer cargo público”.

Líderes da FDN falam sobre eleição e rixa com o PCC

As interceptações  feitas pela Polícia Federal (PF) que revelaram trechos de uma conversa entre os traficantes Zé Roberto, que negociou com o major Carliomar Brandão e João Pinto Carioca, dois dos principais líderes da FDN, dão conta de que a FDN teria sido, em parte, a responsável por eleger o governador do Estado do Amazonas nas eleições 2014, e que pretendiam infiltrar criminosos no pleito municipal de 2016.

As conversas são datadas de outubro de 2015. Elas surgem depois de terem sido informados de que membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) estavam espalhando pela cidade rumores sobre a fragilidade da FDN. Nas mensagens, Zé Roberto fala a João Branco (foto abaixo), segundo a PF, em tom de ironia. “Nossa Faccao ‘e’ ‘tao’ Franca... Que ‘nos’ elegemos Foi um ‘govenadô’... ‘So’ isso”.

Sobre as investigações da relação da FDN com o governador José Melo, a PF informou que “não divulga informações sobre investigações que estão sob segredo de justiça”.

Nas mensagens interceptadas pela PF, Zé Roberto segue conversando com João Branco e diz sobre a rixa que os criminosos do PCC tem em relação à FDN, mas demonstra que o poderio do tráfico está nas mãos da organização comandada por eles. Zé Roberto comenta, ainda, sobre a intenção dos traficantes do PCC em matar a ele e aos demais líderes da Família do Norte, mas deixa claro que antes que isso aconteça, todos serão mortos, dando indícios de que o ataque ao PCC no dia 1º de janeiro já estava sendo planejado. “Nao ‘gosta’ de ‘nos’... ‘Tretarao’ me ‘marta’... ‘Ai’ ‘nos’ ‘ja’ ‘matemos’ ‘msm’”.

Facção nasceu da união de dois criminosos do Amazonas

Investigações da Polícia Federal (PF) indicam que a Família do Norte (FDN) nasceu da união de Gelson Lima Carnaúba, o ‘G’ e José Roberto Fernandes Barbosa, o ‘Zé Roberto, conhecidos criminosos do Estado do Amazonas, que após passarem uma temporada cumprindo pena em presídios federais, retornaram para Manaus determinados (ou orientados) a se estruturarem como uma facção criminosa, nos moldes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV).

O primeiro passo adotado pelos criminosos, segundo a PF, foi elaborar em um ‘Estatuto’ próprio, contendo regras e rígidos pilares de hierarquia e disciplina para difusão através de extrema violência aos detentos do sistema prisional amazonense.

Nas regras e pilares de hierarquia e disciplina existentes em seu estatuto, a FDN rapidamente se estruturou e se sustenta, sendo que a regra número um é que nada é feito ou definido sem a ordem ou aprovação de seus fundadores e principais lideranças, quais sejam, Carnaúba, Zé Roberto, que integrariam o ‘comando’, possuindo a palavra final sobre todos os assuntos da organização.

Em um segundo escalão de comando, mas não menos conhecido que o primeiro, figuram o investigado Geomison de Lima Arante, o ‘Cantor’, além de Cleomar Ribeiro de Freitas, o ‘Copinho’, Alan de Souza Castimário, o ‘Nanico’ e João Branco, que integram o ‘conselho’. Cabe a eles discutir com as lideranças do ‘comando’ todos os principais assuntos da facção, recebendo, por delegação destes, a incumbência de ‘resolver’ os problemas e demandas.

Durante as investigações, a PF já havia identificado a vontade da FDN em exterminar os criminosos da facção rival PCC, os quais eram chamados por integrantes da Família do Norte de ‘imundice’. Todos os líderes e conselho da FDN estão presos em presídios Federais, mas segundo informações da polícia, as mensagens com ordens deles continuam sendo enviadas ou por intermédio de familiares ou de advogados.

No último dia 1º de janeiro, integrantes da FDN executaram 56 detentos que estavam no regime do ‘seguro’, no Compaj. Em fotos divulgadas em redes sociais, os criminosos, dentre eles Márcio Ramalho Diogo, 34, o ‘Garrote’, que ficou como ‘xerife da unidade, após a transferência de ‘Zé Roberto’, aparece em fotos posando em meio a outros detentos.

De acordo com informações da Força-Tarefa criada pela SSP para investigar a autoria do massacre, Garrote era quem estava comandando a rebelião. Garrote foi identificado pela PF como o braço direito de ‘Zé Roberto’ e era o responsável por fazer o recebimento e distribuição de drogas para o traficante.

‘Zé Roberto’ tinha regalias em cela do Complexo Anisio Jobim

Uma revista realizada no dia 29 de julho de 2015, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), feita pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) com o apoio do Exército Brasileiro, encontrou celas revestidas com porcelanato, equipadas com frigobar, ventilador e até sistema de som (foto).



Conforme informado pela Secretaria de Estado de Segurança, a cela era do traficante ‘Zé Roberto’. No entanto, o então secretário de Justiça e Direitos Humanos, Louismar Bonates, afirmou que o local era usado apenas como ‘motel’ (cela íntima) para os presos, fato que foi contestado pelos demais internos.

A revista realizada pela SSP em parceria com o Exército causou desconforto entre a Secretaria de Segurança e os gestores da Secretaria de Justiça. Na época, Bonates informou que somente a Sejus e as empresas que coordenavam as unidades prisionais deveriam fazer as inspeções.

No entanto, após intervenção do Ministério Público do Estado (MPE) e após a saída de Bonates da Sejus, as celas luxuosas foram destruídas, em novembro de 2015, pela atual gestão da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (Seap).

Em dezembro de 2015, em um relatório feito pelo Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), peritas que vieram de Brasília relataram a existência dessa divisão da unidade por facções e regalias aos presos. Consta no documento que dentro do Compaj, local onde e que os detentos da FDN ficavam com maior parte da cadeia e que os demais se amontoavam em outras áreas denominadas de ‘seguro’.

Durante as inspeções, o órgão identificou problemas e características que podem estar relacionadas à violenta rebelião ocorrida em 1º de janeiro.

O Mecanismo identificou como problema central da unidade a omissão estatal frente à execução penal. Além disso, identificou que os presos exerciam um autogoverno, estipulando rígidas regras de conduta, em boa medida legitimadas pela omissão do Estado, afetando a segurança jurídica e, mais grave, a vida dos presos.


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